Os demônios

(sadismo por Sade, erotismo e desejo por Bataille)

Para melhor entender os desejos da protagonista e os conceitos que quero abordar, vamos ter de base dois escritores, Marquês de Sade e Georges Bataille. 

Marquês de Sade foi um político, filósofo e escritor francês, ele viveu de 1840 até 1914, escreveu livros como 120 Dias de Sodoma e Os Crimes de Amor. Ele é conhecido como “pai do sadismo” e por suas ideias de sexualidade libertina, ele radicalizou a possibilidade de justificar o desejo contra a moral convencional. O Sade além de defender esses desejos naturais do ser humano, passar boa parte da sua vida cultivando essas experiências eróticas e produzir conteúdo pornografico e filosófico, também questionava a moral humana. Ele precisava de Deus como adversário, ele precisava tentar convencer as pessoas que a moral e ética é algo meramente inventado, a natureza não conhece a moral humana. Sade também tem um outro lado que se manifesta com clareza durante a época que se apaixonou por Anne-Prospère, apesar de defender a libertinagem absoluta, nas cartas que mandava para Anne ele se mostra ciumento e possessivo, revelando um lado egoísta e vaidoso. 

Sade além de trazer questionamentos e filosofias interessantes para o filme, também se mostra uma figura que funciona como personagem do filme. Ele se coloca como companheiro indesejado da protagonista, perseguindo suas dúvidas, incentivando a ação em nome de seus desejos, dialogando e discutindo com ela. Ele se encaixa no filme com seus questionamentos, mas também como uma figura exagerada e muito masculina, contrastando com o discurso mais romântico e “inocente” da protagonista. 

Ele se mostra com diferentes humores, às vezes carinhosos ou cruel, outras horas engraçado ou terrivelmente lógico. Ele é sempre vaidoso, inteligente e manipulador, se mostra impaciente quanto à negação da protagonista. Indiretamente, ele simboliza a consciência da protagonista, ele faz parte dela e ao mesmo tempo é fruto da loucura e estudos dela, de qualquer jeito ele se faz presente a deixando sempre com uma pulga atrás da orelha.

Georges Bataille foi um escritor e filósofo francês que viveu de 1897 até 1962, escreveu livros como Erotismo e A Parte do Olho, ele tinha como influência Marquês de Sade e Freud. Bataille também compartilhava de suas filosofias eróticas e liberdade sexual, assim como Sade, mas ele vai trazer um questionamento ainda mais interessante: ele não simplesmente achava que não deveria existir limites morais, ele dizia que precisávamos nos limites morais para cultivar o desejo de ultrapassá-lo. Ele também falava muito sobre o erotismo e a morte serem perigosamente próximos porque ambos podem perturbar a individualidade. As filosofias de Bataille conversam com Sade e a protagonista pois questiona a própria proibição moral que ela enfrenta, ele mostra a necessidade de existir um pecado para existir o prazer de ultrapassar. 

O filme também aborda o tema de Eucaristia, Bataille então aplica sua filosofia na religião trazendo a dúvida se Eucaristia não poderia ser um ritual para transformar separação em comunhão. Georges Bataille tem um outro conceito que conversa diretamente com a história, o conceito de continuidade/descontinuidade, ele diz sobre a individualidade das pessoas e a vontade de acabar com essa individualidade e distância entre corpos. O erotismo entra como uma tentativa provisória de anular essa distância, essa vontade de acabar com essa distância se manifesta em uma busca por “continuidade profunda”, criando a ideia do amante ser a extensão do próprio corpo (misturando antropofagia com narcisismo).

Sade continua como personagem atormentador da protagonista, Bataille entra talvez como estudo da personagem ou base e apoio para a criação do conceito do filme.